Concepções de corpo e sexualidade nas tradições religiosas
Diariamente, deparamo-nos tanto com diferentes comportamentos, reações, gostos, valores, como com diferentes formas de expressar pensamentos, ideias e crenças. Essas diferenças são questões culturais.
No senso comum, há pessoas que se utilizam das expressões “ter cultura” e “não ter cultura” como sinônimos de culto e não culto, gerando inúmeros preconceitos e discriminações, porque desconhecem que a compreensão do que é cultura pode estar muito além do que imaginamos.
É preciso considerar as diferentes compreensões relacionadas à cultura. Há estudos que indicam que seu surgimento está vinculado ao desenvolvimento do cérebro humano, consequência da vida Arborícola (referente ao que vive em árvores) dos antepassados, que auxiliou no desenvolvimento da capacidade de utilizar as mãos para manipular objetos, e ao bipedismo (capacidade de se locomover permanentemente sobre dois membros inferiores, nesse caso as pernas, de forma a manter uma posição ereta).
O relatório mundial da Unesco sobre diversidade cultural e diálogo intercultural apresenta um panorama sobre a temática, contextualizando diferentes olhares e apontando desafios a serem enfrentados no nosso tempo. Já na sua introdução, afirma que “A diversidade cultural vem suscitando um interesse notável desde o começo do novo século. Porém, os significados que se associam a essa expressão ‘cômoda’ são tão variados como mutáveis. Para alguns, a diversidade cultural é intrinsecamente positiva, na medida em que se refere a um intercâmbio da riqueza inerente a cada cultura do mundo e, assim, aos vínculos que nos unem nos processos de diálogo e de troca. Para outros, as diferenças culturais fazem-nos perder de vista o que temos em comum como seres humanos, constituindo, assim, a raiz de numerosos conflitos. Esse segundo diagnóstico parece hoje mais crível na medida em que a globalização aumentou os pontos de interação entre as culturas, originando tensões, fraturas e reivindicações relativas à identidade, particularmente a religiosa, que se convertem em fontes potenciais de conflito. Por conseguinte, o desafio fundamental consistiria em propor uma perspectiva coerente da diversidade cultural e, assim, clarificar que, longe de ser ameaça, a diversidade pode ser benéfica para a ação da comunidade internacional”.
Outros estudos indicam que o desenvolvimento da cultura se deu quando o homem convencionou a primeira regra ou norma. Ainda, há estudos relativos à passagem do estado animal para o humano quando o cérebro do homem foi capaz de gerar símbolos, representações, caracterizando o surgimento da cultura. A cultura vem a ser o princípio, a origem de todo e qualquer sistema cultural e se caracteriza como um processo em construção, desconstrução e reconstrução.
Por outro lado, compreende-se a cultura como um “conjunto das representações que os indivíduos têm do mundo e de si mesmos, dos valores a partir dos quais são apreciadas, das mediações técnicas e sociais”. Ou seja, a cultura é a diversidade de elementos que o ser humano desenvolve e utiliza para compreender o mundo e a si mesmo, seja ao estabelecer uma (inter)relação com o Outro, seja com as coisas.
Nessa mesma perspectiva, afirma-se que a cultura “se define como uma trama de sentidos e significados transmitidos por símbolos, mitos, acontecimentos, relatos, práticas e reconstruções que expressam uma compreensão e reconstrução do sentido da totalidade da existência e dos sujeitos entre si”.
A partir do momento em que o ser humano nasce, ele começa a ter contato com uma ou mais culturas e, cedo ou tarde, passa a ser considerado portador de culturas e não de uma única e determinada cultura. Ainda, no desenvolvimento do ser humano e na forma de ele se relacionar com o mundo e seus semelhantes, identifica-se a dimensão da religiosidade, que integra a vida das pessoas independentemente da cultura. Por isso, exerce grande influência na forma de ser, pensar e coexistir do ser humano.
A religiosidade é uma dimensão, inerente ao ser humano, que contribui para a busca de respostas às grandes interrogações da existência. É o desejo daquilo que transcende o mundo visível, daquilo que é considerado Sagrado, espiritual, mas que incide significativamente no cotidiano das pessoas, pois se trata de uma experiência com o Transcendente, que pode ser realizada por meio de atitudes, orações, comportamentos etc. A religiosidade engloba um conjunto de sentimentos que se manifestam por meio de rituais, cultos, festas, nomes de pessoas, nomes de escolas e cidades, entre outras expressões que revelam a presença do Sagrado como elemento da cultura.
A presença da religiosidade é constatada desde o início dos tempos, por meio de achados arqueológicos de povos antepassados, entre os quais foram identificados símbolos, objetos e representações religiosas.
No Brasil, a diversidade de religiosidade ampliou-se com a chegada dos colonizadores e o seu relacionamento com os povos indígenas, com a chegada dos navios negreiros trazendo escravos do continente africano, com a imigração e a globalização, que proporcionaram o desenvolvimento de outras crenças e manifestações religiosas. É o caso do Espiritismo, das Religiões afro-brasileiras, protestantes, pentecostais, neopentecostais, orientais, esotéricas e muitas outras.
Surgem no Brasil, atualmente, muitos grupos de cunho religioso, os quais são denominados de novas religiosidades, práticas alternativas e/ou grupos místicos esotéricos, que apresentam valores, significados e visões de mundo relacionados a aspectos de Religiões indianas, egípcias, japonesas, tibetanas, amazônicas etc. Uma das características presentes nessas novas religiosidades, segundo a mesma autora, é que não possuem doutrinas, clero ou hierarquia.
Cabe lembrar que o Brasil é um Estado laico, isto é, que não tem nenhuma Religião oficial desde a implantação da República, a partir de 1890. Isso significa que o Estado não deve privilegiar uma ou outra forma institucionalizada de religiosidade em relação às demais, mas deve garantir o respeito à diversidade religiosa, incluindo os que optam em não ter Religião.
A religiosidade torna-se mais evidente à medida que o ser humano, de acorda com sua confessionalidade, dispõe-se a participar seja de momentos de oração, peregrinações, rituais, meditações, cultos devocionais, procissões, estudos do Texto Sagrado, novenas, jogo de búzios, taro ou outras práticas. No processo de vivência da religiosidade, pode haver a procura por orientação e mediação de pessoas acessíveis e sensíveis para se relacionar com o Sagrado, ou se pode recorrer ao uso de imagens, colares, fitas, bentinhos, rosários, medalhas e à prática de benzeções.
Mas qual a relação entre religiosidade e cultura?
Primeiramente, é preciso lembrar que todo ser humano nasce em uma cultura em que ele, geralmente, vai aprendendo sobre o que é favorável ou não à vida, inclusive com relação ao que convém em termos de religiosidade, construindo, assim, sua identidade. Passa a cultivar sua religiosidade conforme os costumes, os preceitos e as crenças do grupo familiar, das pessoas do convívio. Portanto, aquele desejo inerente ao ser humano assume as características culturais de como acreditar, em que acreditar e por que acreditar, bem como as formas de expressar e cultivar crenças por meio dos ritos, símbolos, objetos, gestos e outros.
A religiosidade serve de base para os grupos humanos estruturarem e/ou institucionalizarem o que conhecemos por Tradição Religiosa, Religião ou outras denominações. Nesse sentido, a religiosidade está presente em todas as culturas, pois nelas encontram-se crenças e diferentes maneiras de expressá-las. Negá-las é negar e violar o direito à dignidade e à liberdade de crença ao Outro.
A formação da identidade do ser humano
Independentemente do tempo histórico ou do espaço sociocultural em que vive, o ser humano vem, desde suas origens, manifestando o desejo de conhecer-se melhor: saber quem é, de onde veio, o que faz aqui, para onde vai etc., questões existenciais que, ainda hoje, estão sendo respondidas e são motivo de muitas discussões. Ao fazê-las a si mesmo, ou a um de seus semelhantes, o ser humano demonstra estar pesquisando sobre a própria identidade. Mas você já parou para pensar sobre alguns desses aspectos do parágrafo anterior? Possíveis respostas existem, mesmo não tendo ainda refletido a respeito ou obtido plena certeza!
A identidade refere-se àquilo que se é; e a diferença, aquilo que o Outro é. A identidade e a diferença não podem ser compreendidas separadamente. Em outras palavras, pode-se dizer que não conseguimos existir sem o Outro, pois ele é uma condição para que eu seja, a cada instante, melhor do que já sou.
Como você pôde perceber, a identidade é inseparável das diferenças, pois cada ser humano precisa do Outro para ser compreendido de forma adequada, isto é, o Outro vem a ser um espelho que revela a minha identidade. A identidade é simplesmente aquilo que se é: “sou brasileiro” e a diferença é aquilo que o Outro é: “ela é italiana”, isso significa que não sou e não posso ser aquilo que o Outro é. A diferença entre o eu e o Outro caracteriza a minha identidade e a identidade do Outro.
Aquilo que possibilita a aproximação e o respeito entre as culturas e as Religiões é a diferença, e não a homogeneidade. Portanto, negar as diferenças é como negar a existência do Outro e, por que não dizer, o próprio “eu” mesmo.
É no interior da cultura, entendida como “conjunto de reflexões e ações, de criações e tradições, de formas e possibilidades, de realidades e perspectivas, de uma comunidade humana determinada”, que se concebe e constrói a identidade. Ela é reconhecida na medida em que as diferentes expressões se integram em um universo plural e multicultural.
As diferentes identidades humanas se formaram em um mundo, de certo modo, marcado pela diversidade de culturas, em diferentes tempos, lugares e espaços. As sociedades antigas produziram as primeiras diferenciações mais em nível biológico, como a diferenciação de idade, cor e gênero. Mantendo na base alguns traços em comum, algumas delas começaram a se diversificar, desenvolvendo crenças, mitos, línguas, formas de subsistência, organização social e familiar.
No decorrer dos tempos, essas distinções foram se tornando características de determinados grupos, formando, assim, suas identidades. As relações instituídas na família, nos grupos religiosos, nos grupos de amigos, com as crenças, as formas de pensar e compreender o mundo, de se expressar e de viver deixam marcas profundas no processo de formação da identidade pessoal.
Portanto, a identidade individual está relacionada à identidade coletiva, em que cada ser humano está inserido e se desenvolve. Esse desenvolvimento acontece em toda a vida e é marcado por transformações, conflitos e questionamentos em todos os níveis, especialmente o religioso, pois a identidade do ser humano, independentemente da cultura, tem forte influência das Tradições Religiosas presentes no contexto em que é concebida, além de outros elementos históricos e sociais que, com o passar do tempo e a multiplicidade de relações, ampliam-se significativamente.
A ampliação dos contatos com a sociedade em geral, na qual o sujeito se constitui, irá ampliar o perfil da identidade, ou seja, com características próprias daquela sociedade e cultura. Entretanto, a forma de existir de cada sujeito (identidade) está baseada nas relações que estabelece com o meio, de acordo com sua maneira de interpretá-las e de compreendê-las.
Por se constituir nas relações, pode-se afirmar que cada sujeito está em constante construção de sua identidade. Algumas características podem permanecer por toda a vida, mas algumas não, pois ninguém será aos 30 anos o que foi aos 10 anos.
Identifica-se, no entanto, nas últimas décadas, uma forte tendência de universalizar as identidades, em que se constrói o Outro como diferente, sendo negado em sua dimensão transcendental e infinita, e reduzido a uma espécie de objeto, sujeito à manipulação e à exploração. Essa situação é resultado da valorização e do enaltecimento demasiado de determinadas identidades em suas características humanas, sociais e culturais.
As Tradições Religiosas são, nesse sentido, desafiadas a auxiliar o ser humano para compreender a importância do respeito às diferentes identidades culturais, étnicas e religiosas em prol de um exercício de cidadania e da cultura de paz. Assim, ajudam a promover a aceitação e a compreensão do Outro, seja por meio da abertura ao diálogo, seja do desenvolvimento do senso crítico com relação a qualquer forma de preconceito.